Selecionamos 18 poemas escritos por poetas com menos de 50 anos.

Angélica Freitas Jornalista, poeta e gaúcha é pouco para definir Angélica Freitas, que se lançou na literatura em terras argentinas, em 2006, especificamente em Buenos Aires. Os primeiros poemas publicados saíram em uma antologia de poesia brasileira contemporânea intitulada Cuatro poetas recientes del Brasil. Enquanto isso, aqui no Brasil, Angélica participava de leituras públicas na Casa das Rosas, entre outros eventos. A primeira coletânea de poemas saiu no volume Rilke Shake, pela editora Cosac Naify, sob direção de outro poeta que você conhecerá em breve, Carlito Azevedo.  Contudo, foi a obra um útero é do tamanho de um punho (2012) que teve ótimo respaldo da crítica e tornou-a finalista do Prêmio Portugal Telecom no ano seguinte, consagrando o sucesso de Angélica. 


Mulher de um homem

só lá vem a mulher 

de um homem 

só só pela rua deserta 

em sua bicicleta 

sem bagageiro 

está passando a mulher 

de um homem só 

só pela rua deserta 

em sua bicicleta 

sem bagageiro 

acabou de passar a mulher 

de um homem só 

só pela rua deserta 

em sua bicicleta 

se bagageiro 

silêncio   


Mulher de vermelho

"o que será que ela quer

essa mulher de vermelho

alguma coisa ela quer". 

O poeta, a poeta, seja lá, 

é o alvo da mulher de vermelho, um arraso: 

"ela escolheu vermelho

ela sabe o que ela quer

e ela escolheu este vestido

e ela é uma mulher

então com base nesses fatos

eu já posso afirmar

que conheço o seu desejo

caro watson, elementar:

o que ela quer sou euzinho

sou euzinho 

o que ela quer

só pode ser euzinho

o que mais podia ser".


Sem título

uma mulher incomoda é interditada 

levada para o depósito das mulheres que incomodam 

loucas louquinhas 

tantãs da cabeça 

ataduras banhos frios descargas elétricas 

são porcas permanentes 

mas como descobrem os maridos enriquecidos 

subitamente as porcas 

loucas trancafiadas 

são muito convenientes 


Laura Liuzzi  é uma poeta brasileira. Trabalhou com o documentarista Eduardo Coutinho, como assistente de direção, nos filmes Um Dia na Vida, As Canções e Últimas Conversas. Em 2016, foi autora convidada na Festa Literária Internacional de Paraty. Participou da mesa de abertura, sobre a poeta Ana Cristina Cesar. É responsável pelo núcleo de vídeo do Instituto Moreira Salles. 


Outro

Perdi meu senso de urgência. 

sei se foi antes ou depois daquela lambida, 

seus anticorpos 

e o meu corpo no que ia submergindo, 

derrubando as traves.

Qual o meu interesse

qual o quê eu não sabia essa casa 

está doente e o tamanho da minha mordida 

até que todo o mar congele 

não será maior que qualquer estrada.

Aqui dentro não há mais vaga. 

Aqui dentro não há mais nenhuma vaga.

Perdi mais objetos que encontrei 

e agora a maior parte deles existe 

sem os nomes que lhes dei. 

Volto à sua língua, sua lambida: 

corta, abre, costura e fecha.


Enquanto fabrica seu elefante 

forjo a grafite uma cigarra 

em momento final: 

o coro e a couraça. 

Componho sua aspereza 

com eletricidade das asas prismáticas 

aos olhos de galáxia. 

Registro nas patas desesperada fixidez 

- âncoras para quem não quer partir. 


SOBRE UM LIVRO

Ler à noite

nesse quarto

à meia voz

metade som

metade sopro –

emprestar vida

ao livro

antes morno

sem rumor

deixá-lo que use

minha voz

me surpreenda

a cada linha

de língua inglesa

até que desalinhe:

ondula, angula-se

dobra a curva

e desaparece.


Ryane Leão é uma cuiabana radicada em São Paulo. Formada em Letras pela Unifesp, encontrou nos lambe-lambes que espalhava pela terra da garoa, nos slams e saraus que participava, a oportunidade de divulgar seu trabalho e, é claro, seu ativismo em defesa das mulheres negras. Em seu livro de estreia, Tudo Nela Brilha e Queima (2017), Ryane aborda temas como amor-próprio, feminismo, relacionamentos abusivos e preconceito. Um livro escrito por uma mulher para outras mulheres. 


Sem título

não é para mim esse negócio  de ser imutável  

eu quero é transitar  

entre meus descaminhos  

me transformar 

reconhecer meus instintos  

tô me desconstruindo  

eu sou um universo  

se expandindo 


Algo se repete

algo se repete

pra provar que

você nunca é a mesma

algo se repete

para que você compreenda

que você nunca é a mesma

pare de chamar por suas versões

que estão no antes

elas morreram

pra te parir maior

algo se repete

se repete

se repete

e ainda bem

que você unca

é a mesma


Você me desestrutura

você

me 

de 

ses 

tru 

tu 

ra
você me dá aquela sensação 

de poder ser eu mesma 

sem armaduras 

e nossos olhares 

são capazes de causar um incêndio 

onde tudo era faísca come on, 

baby que eu voltei até a ser clichê 

dizendo que sim 

quando você me chama 

pra visitar todos esses universos 

que cê carrega dentro de si


Ivete Nenflidio é escritora, pesquisadora das manifestações tradicionais brasileiras, curadora artística de festivais e articuladora cultural especializada em Sustentabilidade Aplicada aos Negócios, desde 1996. É curadora de arte do FAVP, recentemente assinou a produção audiovisual: “A estética da arte em favor da luta socioambiental” com o fotógrafo Araquém Alcântara e o artista multimídia Hebert Valois. Como autora, publicou livros de poesia, contos, crônicas e romances, entre eles as antologias: “Memórias Difusas” e “País Estrangeiro” (Editora Beira), a obra “Cartografias da saudade” (PI). Além da ficção “Calendas de Março”, obra viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc. Está em fase de lançamento de outras duas publicações: “Ataque” e “O sereno que habita meus olhos”, com previsão de lançamento para maio de 2022 pela Editora Telha. 


Garrafa lançada ao mar - diário de uma carta

Derivo de antigos troncos mutilados. 

Aos poucos vou dissipando, viajo na cama escura, 

úmida e muda. 

Na preia-mar ou na água preguiçosa, simplesmente espero... 

Dentro da minha casa só existe poesia e ela repercute 

no divino espetáculo de luzes e cores. 

No furor afobado das mãos suadas, sou oferenda lançada ao mar,     

sou carta de amor em impenetrável vitral. 

Meu quintal é o oceano e vou cultuando as palavras. 

Na linha do tempo, traçados, dores e alegrias, 

desejos e um pouco de poesia. 

Delineados que marcam a minha pele, tatuagem que não compreendo. 

Vou ressuscitando pensamentos, só os bons, 

vou observando o crepúsculo, a folia dos meteoritos, 

adormeço no abrigo das ondas, no vento que sopra forte, 

observo a apartação das nuvens, me banho no doce orvalho, 

tenho o peso das travessias 

e permaneço detida na quietude das coisas invisíveis... 

À deriva em alto-mar, encontro outras garrafas, 

âmago em movimento, não são cartas invulneradas, 

não possuem atas, discursos medievais, escrituras, 

declarações de amor, são apenas líquidos, sidras com rótulos ilegíveis,

drogas psicotrópicas, lícitas e doces. 

Navegando encontro: sacolas plásticas, um calçado, uma boia 

acerejada, pálida e eivada; 

vejo placas, encontro um escafandro, cruzo com tartarugas, 

com o periscópio, tem um cilindro ondejando e um golfinho me sorri. 

Encontro: tábuas, velas de uma antiga embarcação, 

máscaras que abraçam sem permissão. 

Encontro: caixas e luvas de algum cirurgião

Encontro: um pássaro e ele repousa sobre mim, me olha e vai embora...

Vou matizando o silêncio, dilapidando instantes, 

conto os dias e as noites. 

Na tardança, no anseio de chegar, me refaço calma, sei que estou pronta,

sinto o arremesso que remove o filete elástico do meu gargalo, 

sei que estou perto, sinto o choque das ondas sobre a praia, 

outra investida, bancos de areia, recifes... 

A chegança me faz tremer. 

Vou despindo pensamentos, desejando encontrar um lugar edênico,

desejando te encontrar, esperando o seu toque, 

suas mãos que vão me varrer, clarear minha casa, 

me libertar da fina areia incrustada, me libertar da cortiça, 

para que eu possa enfim, refrescar, respirar, me resgatar. 

Continuo imaculada, queimei como um náufrago, 

e finalmente sinto a areia úmida, que refresca meu interior. 

Quem sabe serei encontrada, examinada, dobrada, 

(re)lida, dissolvida, guardada, reciclada ou vire notícia, 

ou comida de primitivos insetos, traças prateadas. 

Ao te encontrar respirarei, evasão de minha pele. 

Ambiciono ser lida, em voz alta, com os dedos ou em pensamentos.

Talvez, não mais o encontre 

Ou talvez eu te descubra no limiar da primeira estrofe, no vago e exato 

silêncio das palavras incompreendidas. 

Talvez eu te encontre nos versos, na caminhada solitária do eu-poético,

nos caracteres tortuosos produzidos pelas mãos trêmulas, 

na margem da próxima página 

ou talvez seja emoldurada próximo a sua cama. 

Talvez eu te encontre na primeira frase, no post scriptum, 

ou quem sabe, simplesmente seja invadida pelos seus olhos.

   

Imemorial 

Nos catálogos, meus olhos atentos rastreavam, 

delineando teu nome, 

pedaços riscados. 

Nos telefones rotativos, dedos grudados, 

números discados. 

No confinamento das cabines telefônicas, 

um telefonema, um abismo, a espera,  

um rabisco, um poema. 

Nas mãos suadas: um guardanapo, uma ficha, 

uma mensagem, um recado, 

interferências, ruídos, o gancho, o fone no ouvido, 

uma linha cruzada, o pescoço inclinado, 

uma súplica, um pedido, 

a lembrança de um toque, uma voz do outro lado... 

A espera: um alô, um homem na fila esperando a sua vez, 

o medo de um “até logo” ou um engano, talvez. 

Buscava por ti, nas esquinas e nas ruas paralelas, 

costumava procurar teu nome 

nas páginas amarelas. 


Citações

Sou um livro

com páginas desocupadas,

folhas cruas.

Nas linhas,

enredos de uma vida fugaz,

frases no sentido figurado.

No diário,

páginas arrancadas

p’ra omitir o pecado.

Alguns caracteres leves,

outros estafantes.

No fundo,

escrevo para perdurar,

p’ra existir,

escrevo p’ra seguir em frente,

escrevo, porque é preciso resistir.

Para que não fique ausente

o que tenho p’ra dizer.


Laura Assis é poeta, editora e professora. Graduou-se em Letras pela UFJF, é mestra em Estudos Literários pela mesma instituição e doutora em Literatura pela PUC-Rio. Participou da antologia “Naquela língua” (Elsinore, 2017), lançada em Portugal. Teve poemas traduzidos para o inglês e espanhol e publicados em revistas nos EUA e México. É autora do livro “Depois de rasgar os mapas” (Aquela Editora, 2014) e das plaquetes “Todo poema” é “A história de uma perda” (Edições Macondo, 2016), “Mecânica de nuvens aplicada” (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e “Duas vezes o sol” (Aquela Editora, 2019). 


Exílio 

Ainda não era verão. 

Por fora seria uma noite de outubro, 

por dentro seria o dia de insistir 

em enredos nunca destinados a nós. 

Ontem mesmo fiz planos impossíveis 

com estranhos que não sabem meu nome, 

falei para eles sobre o tempo 

em que frequentava as reuniões do partido 

pra me sentir parte de alguma coisa 

e consentia em escrever 

longos textos sobre poetas inacessíveis 

e os perigos de ficar em silêncio. 

Demorou muito até que eu pudesse sair da ilha, 

mas estive em lugares piores, 

por isso entendo o que você me oferece 

(como alguém que esperava mais porém se surpreende em ter conseguido alguma coisa). 


Copacabana

Você deve estar agora

escrevendo outro poema

sobre muros e fracassos

ou espremendo alguém no espaço

em que não posso mais estar.

Você pode estar agora

se entregando a outra vida.

O que vocês fazem aos domingos?

O que vocês não contam um pro outro?

O que você vê quando fecha os olhos?

Você deve estar agora

tentando ser feliz em São Paulo,

descobrindo o desenho de outras fronteiras

ou apenas aprendendo a lidar

com a sintaxe instável

da sua própria pele. 


Perfeição

O antes da linguagem,

uma ponte.

Água salgada no seu rosto

ou

apenas ímpeto?

Pavimento liso,

sem rugas, sem rasgos.

O antes de tudo.

Sem monstros, sem nada.

Quis ser o quê?

Sol?

Sonhei, mas não mais.

A vida é.

Só.


Alice Sant’Anna é uma poeta brasileira. Começou a escrever aos 16 anos, durante uma viagem à Nova Zelândia. Possui graduação em Jornalismo (2010) pós-graduação em Letras e mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade (2013), ambos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É colaboradora da revista Serrote, publicada pelo Instituto Moreira Salles, e do jornal O Globo. 


Sete anos 

ela come tangerina 

com centenas de dedos meditativos 

empenhados na função de descascar, 

separar um gomo do outro mas não mastiga, 

empurra com a língua 

até a pele descosturar 

feito tecido ou papel 

e romper em suco 

depois caminha pelos quartos 

acaricia os cabelos das bonecas 

muda a posição dos objetos 

desliza dedos pelas paredes 

até que cada canto da casa 

cheire como os dias de verão


Rua dos Bacalhoeiros 

a rua dos bacalhoeiros

em frente à casa dos bicos

pontualmente às seis em pleno domingo

todas as lojas fechadas

sento na calçada para assistir

ao balé das andorinhas

são milhares, trilhares em revoada

que mergulham sincronizadas

feito um cardume

para anunciar em coro

os últimos dias de inverno 


A sandália nova branca com dedos

que se refestelam do lado de fora

como crianças que sabem o verão que vem

de repente a chuva míngua os planos

da calça jeans com sandália de dedo

uma combinação entre-estações

para não se sentir nem tão lá nem tão

cá os dedos curvados corcundas feito crianças tristes

as unhas recém-cortadas que planejaram

se mostrar sobre a cadeira de rodinhas

mas que nada a água inundou a sexta

da janela os bambus se movem muito

chegam a parecer desesperados

as folhas penduradas são cabelos colados

que gritam novas rugas onde nada havia

 

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