Adriane Garcia é poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018).


De dar adeus 


Uma ave vem

Todos os dias

Bicar uma parte

Do nosso corpo 

Sem anestesia

Costuramos

Novamente

Este braço.



Encantamento 


Queimei-me em água-viva

Quando tudo o que eu queria

Era apreciar a mágica

De um ser iluminado 

A que vi era fosfórea

E eu não ignorava nada

Julgava-me uma sábia

Que tinha a idade do mar 

Mesmo assim

Levei a mão. 



A mulher subindo a montanha 


Inda manca

Mas o morro

Não para:

Ou sobe

Ou desaba Demora o dobro

Agora

Mas leva água

(nesses anos todos escondeu bicas) 

Vai só

Nesse estado não pode

Correr o risco

De outra rasteira. 



Do que não posso possuir 


Remexo os bolsos

Sem a ilusão

Dos trinta dinheiros 

A maturidade é a guia da calçada

Onde sentamos

E verificamos a própria pobreza 

Sem alarde

De tentar a bolsa

Que por fim resigna-se: 

Há moedas emocionais

Que simplesmente

Não temos.  


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