Nascida em Pernambuco, em 1959, Jussara Salazar vive em Curitiba desde 1985. Começou sua trajetória como artista plástica, sutil, com várias exposições pelo país, e hoje também realiza trabalhos refinados de design editorial. Como poeta, já produziu livros-objetos, edições artesanais e livros tradicionais, tais como Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá, poemas de Leticia Volpi (2002), Natália (2004), Coloraurisonoros (2008, publicado em Buenos Aires), Carpideiras (2011), O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas (2014) Fia (2014) e Corpo de peixe em arabesco (2019). É uma trajetória de produção que passa de duas décadas, com uma tripla marca recorrente: sutileza, pesquisa e projeto unitário.  

Foi incluída na antologia "Pindorama - 30 poetas de Brasil", organizada por Reynaldo Jiménez para a revista Tsé—Tsé de n.° 7/8 (Buenos Aires, outono/2000).

TENS UMA CORÇA
TATUADA SOB O PEITO?

Aquela corça

Que viste no campo

Extraviada

Como uma letra solta

na página como palavra

Que se desfaz contigo

A corça

Que risca o campo

A corça que corre

Livre

E seu pelo se levanta

Ondula

Dança

Como o vento

Balança ao tempo

E se recompõe

A cada planície

A cada nome que escreve

Quando risca o campo

Leve

A corça anseia

Por águas correntes

Palavras que passam

Como rio que se reescreve

E foge

Como ovelha

Que ninguém recolhe

E habita minha casa

A tua casa

E respira

Solfeja

Um canto torto

Quando corre

Com meus pés pelo campo

Com todos os pés

E respira mais uma vez

Com seu fôlego de corça              

Tens uma corça              

Com teu nome escrito?

Sobre todos os nomes

Há uma corça bíblica

Que habitou

Em mim

que correu pelo campo

Extraviada

E que habitou

Em ti

***

A CASA ME CABE

A casa não me cabe

Me sobra um corpo

um nome escrito

que desaparece

nas paredes

No chão

No ar

Da interminável noite

Entre águas descendo o rio

Mergulho

O vestido se esgarça

Como um mapa de pontos

Marcando

A terra do quintal

Que se espraia

Com suas mulheres

Colhendo as frutas

Ao amanhecer

A casa me cabe

A casa não me cabe

Seguro a concha das mãos

Apuro o som do mar

As pedras marinhas

As ondas inquietas

Que rugem

Que não se calam

sob esse chão

***
Jussara Salazar é mestre em Estudos Literários pela UFPR e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Atua como designer, artista visual e tradutora. Publicou os livros de poesia Inscritos da Casa de Alice (1999), Baobá: Poemas de Leticia Volpi (2002), Natália (2004), Coraurissonoros (2008), Carpideiras (2011), O Gato de Porcelana, o Peixe de Cera e as Coníferas (2014) e Fia (2016). Vive em Curitiba (PR).

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