Alice Ruiz Scherone nasceu em Curitiba no dia 22 de janeiro de 1946. É poeta, hacaísta, letrista e tradutora. Foi casada com o escritor Paulo Leminski, com quem teve três filhos, entre os quais Estrela Ruiz Leminski, que despontou para a literatura e a música. Em 1989, recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia por Vice-Versos. Publicou vários livros de tradução, mas a sua carreira centrou-se basicamente na poesia. Navalhanaliga (1980), Paixão xama paixão (1983),  Pelos pelos (1984), Nuvem feliz (1986), Vice-versos (1988), Desorientais: haicais (1996), Poesia pra tocar no rádio (1999), Yuuka (2004), Dois em um (2008, poesia reunida), Conversa de passarinhos (2008, com Maria Valéria Rezende), Jardim de Haijin (2010), Proesias (2010) são os seus principais títulos. Na música, estabeleceu parcerias com Itamar Assumpção, Alzira Espíndola, Arnaldo Antunes, José Miguel Wisnik, Zeca Baleiro, Chico César e muitos outros compositores. Alzira Espíndola gravou Paralelas, disco com suas letras. A editora da UFPR publicou, na Série Paranaense, Alice Ruiz, espécie de biografia crítica que trata de sua obra.

Poemas selecionados:

[1]

se

se por acaso

a gente se cruzasse

ia ser um caso sério

você ia rir até amanhecer

eu ia ir até acontecer

de dia um improviso

de noite uma farra

a gente ia viver

com garra

eu ia tirar de ouvido

todos os sentidos

ia ser tão divertido

tocar um solo em dueto

ia ser um riso

ia ser um gozo

ia ser todo dia

a mesma folia

até deixar de ser poesia

e virar tédio

e nem o meu melhor vestido

era remédio

daí vá ficando por aí

eu vou ficando por aqui

evitando

desviando

sempre pensando

se por acaso

a gente se cruzasse…

navalhanaliga  (1980)

• • •
[2]

de novo

volto para meu amigo

trago um novo gosto

outra língua

terra estranha

volto aos poucos

para meu amigo

só que agora

já não trago

a alma comigo

gesto antigo

volto

de repente

para meu amigo

sou outra

outro é meu amigo

paixão xama paixão (1983)

• • •
[3]

assim que vi você

logo vi que ia dar coisa

coisa feita pra durar

batendo duro no peito

até eu acabar virando

alguma coisa

parecida com você

parecia ter saído

de alguma lembrança antiga

que eu nunca tinha vivido

alguma coisa perdida

que eu nunca tinha tido

alguma voz amiga

esquecida no meu ouvido

agora não tem mais jeito

carrego você no peito

poema na camiseta

com a tua assinatura

já nem sei se é você mesmo

ou se sou eu que virei

parte da tua leitura

• • •

[4]

espero

desde um telefonema

até um poema
espero

nem que seja

um problema

esse tema

que eu não toco

não porque tema

e sim

porque não entra

em nenhum esquema

espero

dentro da noite

algo que faça

com que eu gema
espero

e tudo é espera

nessa noite amena

menos teu nome

menos meu telefone

menos este verso

ou será um poema?

pelos pelos (1984)

• • •

[5]

hoje

sou uma das coisas

raras do planeta

capaz de dar à vida

tudo que ela tem de luz
flor

que aberta

traria da água 

escura

o pólen, a fruta

dia

que tiraria

de dentro da noite

o lado oculto da lua

tão rara

e como eu

todas as sementes

que o vento arranca de tudo

e atira no nada

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