Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Casa das máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia. Em 2016, co-organizou pela Patuá a antologia Escriptonita (poemas tematizando super-heróis). Também lançou Corpo de festim [livro ganhador do 57o Jabuti/ 2a Edição pela Penalux], Gravidade zero (2017) e O sal do leviatã (2018). Seus três primeiros livros estão disponíveis online gratuitamente na plataforma ISSUU. O segundo e o terceiro poemas desta seleção são inéditos. O poema “(Motim 2.0)” foi publicado originalmente em Casa das máquinas, nesta versão ligeiramente modificado.


(Motim 2.0) 

“às ordens, hei-me!”, 

“às ordens, hei-me!”, 

ó rei errado! 

que cansei de estar calado 

aos despautérios do patrão! 

contra as egrégoras brutais 

deste transporte lento, 

gangrênico: 

ergo-me! 

contra as regras cegas 

desse presente de grego, 

ergo-me! 

contra o determinado 

tédio inédito, 

sem término, 

sem trégua, 

numa guerra contra o dono 

dessa redoma total 

cujo domínio sombrio 

mina em mim 

o dom de homem, 

ergo-me! 

entretanto um nome 

sempre me reencontra: 

o meu, tornado mero número 

no ministério, 

na carteira de trabalho, 

na zona eleitoral, 

a mera estatística 

nas fileiras da mídia, 

um álibi, “eis-me!”, 

um pobre anônimo, 

rasgado e desgraçado, 

mas apto ao bom combate, 

grato pela chance de gritar 

nas ruas contra 

o desrespeito do governo, 

nesta câmara de gás lacrimogêneo, 

lacrada, 

a que chamamos, hoje, 

Brasil ou Rio de Janeiro 


*   


Terrorismo doméstico 

toda ira sanguínea 

direcionada ao centro político 

de um país em ruínas 

– quem está comigo ? – 

todo menosprezo e escárnio 

lançados ao povo 

(sufocado por desgosto e impostos) 

enquanto os ricos óbvios 

reciclam a pobreza 

anônima em periferias 

que agonizam 

por negligência e frieza 

– quem está comigo ? – 

a massa ignara, 

manobrada, 

alimentando o monstro nacional 

cujo apetite desconhece 

qualquer limite: 

estúpida república de furto 

e conluio inconclusivo, 

os fulcros do lucro auscultam 

(incubus/ sucubus/ exus pedem justiça) 

evangélicos esconjuram 

o assunto 

jejuando nus 

a um jesus em decúbito

– quem está comigo ? – 

se somos ilhas, 

se somos bichos, 

se somos lixo, 

se somos nada 

além da soma 

do que é desprezível 

– quem está comigo para explodir Brasília ? –   



Tirem leite de pedra

extraiam ouro da merda, 

nenhuma esquerda ecoa 

nada providencia a sombra boa 

neste calor da porra, 

do primeiro pau-brasil 

não sobrou sequer o talo 

o cepo seco, 

nenhuma urina insípida 

ativa a latrina neste país 

de pus e súlfur, 

aqui é o cu do judas 

é onde o vento faz a curva 

onde não há cura pro mal, 

só carnaval, 

há curra pra cultura 

o show da vida, 

a mídia burra 

a língua culta 

contra a fala chula 

é pau na bunda da turba, 

é pica sifilítica 

pro boquete dos banguelas 

“the horror – a merda – the horror – a merda” 

domingos no parque 

com pique- niques de alpiste – “é triste” – farinha 

e água e mais nada aqui 

é o parque da gentalha ávida 

por favores e dádivas 

terra brasilis 

sob o piche nem ave-maria 

ou reza pra virgem 

salvam este projeto 

inexequível 

democracia de cu 

é rola, 

no planalto 

a apoteose da sandice 

onde tudo que existe é alpiste 

farinha e água 

e mais nada 

alguma boa intenção resiste? 

é, amigos, é triste

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