Representante da nova geração da poesia brasileira contemporânea, Ivete Nenflidio apresenta aos leitores sentimentos traduzidos na metalinguagem intrínseca da vivência do eu lírico da autora.  Reúne, em sua obra, os fragmentos do mundo da arte, vivenciados pela escritora nos seus mais de 25 anos como gestora cultural. As obras “Memórias Difusas” e “Cartografias da saudade” agrupam textos que foram produzidos para homenagear a escritora Hilda Hilst. O desafio: quebrar tabus, assim como há anos Hilst o fez, apresentando temas sobre o desejo feminino, tantas vezes silenciado, a partir do qual são revelados os dramas relacionados aos afetos humanos, à submissão, à opressão feminina e à negação do prazer. Pretende-se aqui discutir quais os mecanismos acionados pela poetisa na construção desses poemas e como essa representação dialoga com seu projeto poético, revelando-o.   


“No mais violento do meu martírio, /deixo-te ir, /amor improvável, /amo-te livre! /Voa para me esquecer /e se sentir saudades; /voe para voltar, /volte para me amar. /No mais íntimo da minha volúpia, /chegue sem pressa”   “Sou um livro, /com páginas desocupadas, /folhas cruas. /Nas linhas, /enredos de uma vida fugaz, /frases no sentido figurado. /No diário, /páginas arrancadas, /p’ra omitir o pecado. /Alguns caracteres leves, /outros estafantes. /No fundo, /escrevo para perdurar, /p’ra existir, /escrevo, /p’ra seguir em frente, /escrevo, porque é preciso resistir. /Para que não fique ausente /o que tenho p’ra dizer” 


No poema acima, a autora afirma ter “arrancado páginas”, eliminado momentos de uma “vida fugaz”, numa tentativa de apagar memórias pecadoras, permanecendo no “livro” apenas o que é aceito pela sociedade. A análise do “proibido” nos poemas de Ivete Nenflidio é desenvolvida a partir do pressuposto de que as relações podem ser modificadas por meio de uma dinâmica mais livre da libido, em que a repressão dos instintos prazerosos femininos venha a ser amenizada, o que resultaria em um melhor entendimento sobre o corpo das mulheres, suas necessidades e desejos. 


“Quero noites delirantes, /quero me perder, /respirar-te por inteiro, /e em meus braços te prender, /sentir teu gosto, /e esse /ficar impregnado /em minha boca, /quero me confundir /nos teus lábios, /sufocar de prazer!” 


A força erótica atualiza, portanto, nosso desejo de permanência, as melhores lembranças, a continuidade e a permanência no encantamento. A vivacidade que transcende o sexo, este tão humilde na sua exigência meramente corporal, e o erotismo presente nos poemas vão além da prática carnal: tudo isso é profundo e guarda o desejo no olhar. É audacioso, deseja nutrir-se não só deste corpo, mas, com ele, se deleitar nos prazeres vedados. É o que visualizamos no poema:   


“Tu a sugar-me inteira, /cravando minhas /nuvens de chuva, /rompendo minha carne, /morte suave” 


Há a recorrência da natureza e dos sentidos como imagem preferida da representação do desejo, aludindo, muitas vezes, à entrega carnal ou à aventura erotizada, que intenta explorar profundamente as sensações. É o desejo ávido que não se sacia; é a distância de corpos apaixonados separados pela cólera; é a fruição da ruína dos limites do próprio corpo. Dessa maneira, a relação entre o perecer e o existir, a dualidade entre o amor e o ódio, a renúncia e o desejo constituem aquilo que sustenta a sensualidade, resultando na superação – mesmo que momentânea – da morte. Procura-se, com esta análise, compreender as causas que acorrentam o prazer feminino, buscando respostas e debatendo sobre temas considerados proibidos e mantidos com extrema atenção pela sociedade dominante e patriarcal. Discutir sexualidade feminina no âmbito cristão é um desafio ainda maior e, na maioria das vezes, ainda mais polêmico, já que os desejos da carne foram eleitos como os pecados mais perturbadores e terríveis, aquilo que é “inaceitável aos olhos de Deus”.   


“Quero beijar /teus dedos /em delírio violento, /quero o coração /acelerado, /lépida atração. /Quero que seja intenso, /no início, /meio e fim, /quero que conheças /todas as minhas fronteiras, /que dure a vida inteira. /Quero experimentar /em mim /tu’alma, /nosso alento. /Quero o desejo aflito, /fervendo o meu sangue. /Quero todos os sentidos, /o toque, /o cheiro /o gosto. /Quero em meu íntimo, /no repouso /do teu peito /de sons /descompassados, /sucumbir, /corpo largado. /Quero no meu corpo /a chama, /beijos febris. /– Entregue a um fogo /que nunca se apague. /Quero um amor sem fim, /quero a paz pequena, /serena... /Quero ser plena!” 


Segundo a autora, ela não pretende causar desconforto aos leitores mais conservadores, mas, sim, criar um debate acerca do tema, sendo a aceitação dos prazeres humanos um fator preponderante para a emancipação social, uma provocação sobre um outro olhar, distante do que seria uma busca hedonista de sensações impulsivas.   


“Quero ser tua /madrugada afora /e provar /tudo que incita, /que aflora.” 


Nos estudos filosóficos, o princípio de realidade supera o princípio do prazer: o homem aprende a renunciar ao prazer momentâneo, substituído pelo prazer adiado, restringido, mas “garantido”. Por causa desse ganho duradouro, através da renúncia e da restrição, de acordo com Freud, o princípio de realidade “salvaguarda”, mais do que “destrona”, e “modifica”, mais do que “nega”, o princípio de prazer. Segundo essa concepção, toda energia que seria gasta na atividade sexual (princípio de prazer) é desviada para o trabalho (princípio de realidade). Fica claro que o princípio de realidade é também a instauração da dominação social, evidenciada no poder masculino como estratégia histórica repressiva. Freud considera que as forças mentais opostas à realidade são sufocadas na própria vida real. Ignoradas pelo inconsciente, operam a partir dele. O princípio de realidade, modificado pelo princípio de prazer, faz com que este prevaleça não modificado somente nos mais profundos processos inconscientes. Entre essas atividades mentais, Freud destaca a fantasia como “uma atividade que retém um elevado grau de liberdade, em relação ao princípio de realidade, mesmo na esfera da consciência desenvolvida”.   


Corpo sedento Volte! Ondeia meus pensamentos, envolva-me em abraços... Você, que mudou minha vida com sua fala amável, doces palavras. Me faltam os épicos contos, os versos rimados... Clamo por ti... te encontro nos sonhos... Sem ti, sou chão de concreto, terra eivada... Pássaro triste, dia brumado, inverno severo... Sem ti, o sereno habita meus olhos. 


A felicidade seria a satisfação do princípio de prazer, mas a realidade nega isso. Para alguns psicanalistas, a fantasia é a região da consciência não tocada pelo princípio de realidade. É o refúgio do princípio do prazer. No poema abaixo, a autora fala do ócio criativo, condenado pela sociedade capitalista que transforma homens em máquinas, transformando seres humanos em robôs, “sem tempo para o amor, para o café, para a poesia, sem o som do instrumento ou a criação de uma nova melodia”.   


“Tenho saudades /da tua respiração arfante /depois do amor /Sem ti, /as noites são /intermináveis, /preciso do seu ócio, /do café, /da poesia, /do som do instrumento, /da criação da melodia. 


Em outro trecho, a escritora narra o amor violento, acobertado por uma sociedade que insiste em permanecer calada perante as agressões, diante do feminicídio. Fala do sexo forçado, da violência cometida cotidianamente contra as mulheres, que, aprisionadas, não encontram apoio ou garantias.   


“Te espero /e a incerteza me acompanha, /me faz tremer. /Nosso amor que era fogo /virou cinzas. /Disseste que sou um anjo, /mas cortaste as minhas asas”.   


A dualidade entre o amor e o ódio é presente na obra da autora, assim como as críticas a uma sociedade machista e patriarcal. Abaixo, um outro poema escrito pela poeta, que enfatiza o sofrimento velado de uma mulher, novamente reforçando a necessidade de um empoderamento feminino, com um olhar abrangente sobre um dos maiores problemas enfrentados pelas mulheres.   


“Hoje, vivo /no disperso retiro, /muros introvertidos /e calados. /Sofro em silêncio, /agarrada ao passado, /enclausurada /em minhas falhas memórias, /observo os retratos, /leio suas cartas /a poesia... /Assim vivo, /um dia de cada vez... /Tenho saudade /de tudo que é ausente. /Amando-te, /Sonhei, /asfixiei... /Idealizei palavras /que não existiam” 


A poesia da autora não é para mulheres, mas, sim, sobre as mulheres, suas dores, angústias, aflições e desejos reprimidos. Outros temas são presentes na poética da autora, como “esperança”, “liberdade” e a necessidade de salvaguardar as memórias ancestrais das mulheres, através da preservação das práticas das rezadeiras, benzedeiras, parteiras e mulheres detentoras da sabedoria popular. No poema “Teu nome”, a autora cria uma belíssima homenagem à palavra “liberdade”. 


Teu nome

Se tu fosses uma palavra,
certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou te chamasse de caminho,
mas não qualquer um,
tu serias aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamar-te de mistério
ou de infinito,
já que não posso imaginar tua dimensão.
Teu nome poderia ser chuva,
rio ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés
e lembraria o balanço do teu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos
e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra de ti.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem,
esperança,
memória,
sem dúvida,
teu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e tu terias nome e sobrenome.
 


A partir do mergulho profundo na busca do eu, Ivete Nenflidio faz da lírica um diário artístico, quase em tom de crônica, que dá zoom às pequenas coisas do cotidiano. A dualidade entre amores e desavenças também é presente na poética de Nenflidio. No poema abaixo, a autora narra um triângulo amoroso e a submissão de uma mulher apaixonada, que, conhecendo sua posição, sem enxergar alternativas, a aceita como uma “triste sina”.   


És prometido a me perder e vai vivendo, /negociando com mercadores, /e segue viajando por outros lares, /ouvindo o relato de tantas dores... 


É possível observar mais uma vez a prostração, a desilusão de uma mulher ludibriada, traída pelo amor de sua vida.    


E no teu abraço, no qual me perco, /grandes galhos labirínticos /impedirão a erosão do teu ser /e fortalecerás mais uma vez /as suas desgarradas raízes. 

Poema na íntegra: 

Pescador Com corpo trancado, 

sai para a labuta, 

adentra a imensidão, 

mares, ares do oeste, 

uma extenuante luta. 

És sonhador e leva consigo 

a cor dos meus olhos. 

Pelas tuas mãos firmes, 

travessias de descobertas, 

estás prestes a me ver... 

És jangada de braços-remos, 

em seus gritos 

ecoam os sons dos oceanos 

e na Pedra do Sal, 

mais um dia se esvai... 

Com seu olhar atento, 

vai lendo o mar e os ventos 

e se acalma na frondosidade 

de profusas copas 

e na balsa de antigos ipês 

repousa em tábuas... 

És prometido a me perder 

e vai vivendo, 

negociando com mercadores, 

e segue viajando por outros lares, 

ouvindo o relato de tantas dores... 

Sei que logo voltará, 

regressará para se fortalecer 

e, no aconchego do meu ser, 

na restinga dos meus olhos, 

me verás colorida, 

cores de bromélias... 

E se refrescará no tempero 

das minhas águas, 

onde mergulhará 

e me encontrará inteira, 

e descobrirá no frescor da minha brisa 

um voo de gaivota, 

um vento fresco paraíso 

de doces notas. 

E no teu abraço, 

no qual me perco, 

grandes galhos labirínticos 

impedirão a erosão do teu ser 

e fortalecerás mais uma vez 

as suas desgarradas raízes. 


O “eu” lírico da autora caminha em direção a uma sensualidade convertida em obra de arte e na conexão com a natureza. Assim, é possível conhecer o mapeamento não só do próprio corpo desse eu poético, mas também da pessoa amada. No poema “A pintura”, a sensualidade está impressa como tinta pelos “dedos pincéis”, a tela é o corpo “nu”; a mulher: inspiração e representação do sagrado e do belo. 


“A pintura"

No quadro tingido de desalentos e frustrações, 

o artista imortaliza suas dúvidas e angústias. 

Tentando criar uma inusitada obra de arte, 

o artista olha o corpo nu. 

O corpo é tela em branco, 

onde produz graciosos afrescos, 

cria em pensamentos 

eminentes cordilheiras, 

revela traços nos seios da amada, 

imponentes picos. 


Nas curvas do corpo nu 

desenha as estradas 

que ainda não percorreu. 

Observa seu quadro inacabado, 

são pequenos rascunhos. 

Produz esboços de divertidas 

nuvens de algodão 

disfarçadas entre as estrias 

do corpo nu. 


Acima do coração eterniza 

os momentos que foram bons. 

Com a ponta dos dedos 

cheios de tinta 

observa o painel, 

enxerga o contorno de um corpo, 

continua compondo a pintura. 

Pinta a beleza em movimento 

e a tempestade afável sem vento. 

Pinta os dias turbulentos, 

agitadas formas estranhas. 

Também pinta as mínimas 

manifestações dos dias de calmaria. 

Pinta a Lua grandiosa 

e algumas partes encobertas, 

nuvens melindrosas... 

Pinta os mistérios, 

o dia principiando, 

continua pintando a tela, 

corpo vazio, corpo nu. 


Pinta o Romantismo, 

o Realismo. 

Pinta o Impressionismo, 

o Expressionismo. 


Seus olhos brilham, ele renasce. 

Triste artista, 

pinta suas lamúrias, 

continua pintando... 

Pinta o calor do Sol 

aquecendo sua alma. 

Pinta o canto das cigarras, 

o som das matas. 

Pinta o cheiro do mato molhado. 

Artista insaciável 

devora sua tela, 

pinta mais e mais... 

Pinta estradas desconhecidas, 

procura desbravar novos caminhos, 

pinta o instrumento 

silencioso do cantador... 

O olhar apaixonado 

do homem comum, 

o som estridente 

da alegria das crianças 

e suas lúdicas fantasias. 


A tela é corpo cansado... 

Precisa adormecer, 

é corpo exaurido, corpo nu... 


Nos pés descalços, 

mais e mais pinturas, 

pinta cada pedaço. 

Não és mais tela em branco, 

és tela habitada de entretons. 

Colorido impossível de imprimir... 


Pela manhã, 

a mulher matizada 

renasce tatuada de beleza. 

A arte e as marcas da pintura 

estão encravadas em seu corpo. 

Pureza e contentamento. 

Depois de pintar 

tão belo quadro, 

o artista de olhos desconexos 

apenas observa. 

Contempla seu ofício, 

admira e se orgulha... 

Sua obra, tela corada, 

é corpo marcado de encanto. 

Quadro harmonioso... 

Pintura sutilmente traçada 

pelas mãos do artista. 

Pelos dedos pincéis, 

ele continua examinando 

o corpo nu vestido de beleza. 


O artista, apaixonado pela sua criação, 

se entrega à paixão 

e ama delicadamente 

sua mais recente obra-prima”. 


Nas publicações “Memórias Difusas” e “Cartografias da saudade”, verificamos a inquietação que integra toda grande lírica. De um lado, há uma sensibilidade notável que capta o mundo numa perspectiva atenta, trazendo à tona um universo de perspectiva inventiva. De outro, uma escrita que demonstra amplo domínio do fazer estético. Dona de uma voz poética altamente original, idealista e ativista, sem pudores, vai abrigando o íntimo, com a mesma intensidade poética. Em “Quem me dera”, faz uma reflexão sobre a própria obra, sobre o lugar que a sua poesia ocupa no panteão literário. Vejamos: 


"Quem me dera Meus poemas? 

Ah! São tolos… 

Tenho versos ordinários, porcos… 

São sintéticos, 

como flores de plástico. 

São como borralhos 

de cinzas podres, 

estão mais para ditados populares, 

são como o gosto amargo 

do tabaco do cigarro que trago, 

são como cais desertos, 

distantes de seus barcos, 

sim, são assim, 

são rasos, vagos, 

são como nós-cegos. 

Não são como as ardentes 

e conscientes palavras de Pablo, 

estão distantes das espantosas metáforas de Eduardo, 

não são como as fabulosas 

passagens lúdicas de Mário 

e estão longe dos enigmas mirabolantes de Jacques… 

Não revelam as profundezas da alma 

como os versos de Clarice, 

e não se parecem em nada 

com as palavras do boêmio e faceiro Charles, 

não são como os surpreendentes livros de Rosa 

e estão anos-luz do realismo de José… 

Não são como a solidão lascívia de uma Florbela, 

não revelam a vanguarda como Abaporu, 

não afrontam como Pagu, 

e muito menos estão nos versos 

doces e adoráveis de Cora. 

Quem me dera escrever poemas e dedicá-los a Cuba, 

assim como fez Neruda, 

ou defender o povo latino-americano, 

como fez Galeano. 

Quem me dera fosse tão humana como Quintana. 

Quem me dera ter o senso de humor 

de um expert como Prévert. 

Quem me dera fosse um grande escritor, 

assim como a imensa Lispector. 

Quem me dera escrever como Freire, Voltaire ou Baudelaire. 

Quem me dera decifrar todas as cores de Guimarães, 

ou ter a lucidez e as palavras de afago de Saramago. 

Quem me dera encontrar as palavras francas de Espanca.

 Quem me dera quebrar tabus como fez Pagu. 

Quem me dera retratar indígenas, negros, 

favelas e vilas como fez Tarsila. 

Quem me dera fazer brotar nos meus tachos 

a doçura de Coralina… 

Ah! Quem me dera! 

Quem me dera! 

De que vale a minha arte, 

se não existe para quem?"


Uma poética marcada por narrativas que buscam desafiar o tempo, enfatizando sua paridade e correlação. Há, no resgate das memórias, uma singular singeleza na riqueza dos encontros e desencontros da vida, da pele, de natureza entranhada. 

Alternando entre poemas longos e curtos, a poeta elabora versos soltos e livres de modo a se aproximar dos leitores, como se estivesse fazendo uma série de confissões ao pé do ouvido: a falta, os desejos, os clamores de um “Corpo sedento”, o sono velado, o discurso repetido do “Enredo envelhecido”, tudo é revisitado e (re)escrito com a força do “Vento Norte” de um tempo antigo. 

Em alguns momentos, o tom lúdico e satírico também está presente nos textos da escritora, mas sem perder o olhar poético sobre o mundo, configurando uma narrativa crítica e, ao mesmo tempo, leve, uma das matrizes fundamentais do enredo literário de Ivete Nenflidio. 

Segundo a autora, ela pretende, com isso, ter um alcance maior, usando sua voz para sensibilizar as pessoas, debatendo temas mais sensíveis, sem confrontar as mentes mais conservadoras, numa tentativa quase postulante sobre temas urgentes da atualidade. 

Na sua arte, temas como sensualidade, feminismo, machismo, autoritarismo, problemas ambientais e sociais, tudo isso é retratado de forma intensa e profunda. No poema “Garrafas lançadas ao mar”, a poeta dá voz a uma carta de amor que viaja dentro de uma garrafa. 

Essa voz procura retratar a beleza e a destruição, novamente a dualidade da utopia e da distopia. Personificando um pedaço de papel, a autora utiliza um recurso estilístico para dar uma característica humana ao objeto inorgânico. Ao utilizar a figura de linguagem, a narrativa se torna lúdica e acessível ao público.   


"Derivo de antigos troncos mutilados. Aos poucos vou dissipando, viajo na cama escura, úmida e muda. Na preia-mar ou na água preguiçosa, simplesmente espero"


Cenas poéticas que narram a perplexidade de um mundo em transformação, com abordagens éticas, coreografando a poesia do presente. No trecho acima, a autora cria uma reflexão sobre a origem do “papel”, “derivo de antigos troncos mutilados”, descrevendo como a mutilação também está na natureza, na fauna e na flora, no corte das árvores.   


"Dentro da minha casa só existe poesia  e ela repercute no divino espetáculo  de luzes e cores. 

II No furor afobado das mãos suadas, sou oferenda lançada ao mar,      sou carta de amor em impenetrável vitral. 

Meu quintal é o oceano  e vou cultuando as palavras.  

Na linha do tempo, traçados, dores e alegrias, desejos e um pouco de poesia. Delineados que marcam a minha pele, tatuagem que não compreendo. 

III Vou ressuscitando pensamentos, só os bons,  vou observando o crepúsculo,  a folia dos meteoritos, adormeço no abrigo das ondas, no vento que sopra forte, observo a apartação das nuvens,  me banho no doce orvalho, tenho o peso das travessias e permaneço detida  na quietude das coisas invisíveis"


A poética escrita por seres apaixonados marca o pergaminho que atravessa mares, com o objetivo de um dia chegar ao ser amado. No poema, a “carta” descobre a beleza ao observar o crepúsculo, apreciar a beleza das constelações, sentindo o movimento das ondas, do “vento que sopra forte”, se acalmando com o doce toque das gotas de orvalho. Nos versos da próxima estrofe, a carta encontra outras garrafas, entretanto, elas não carregam em seu interior cartas de amor, mas sim líquidos, bebidas alcoólicas, aqui descritas como “drogas psicotrópicas, lícitas e doces”.   


"IV À deriva em alto-mar, encontro outras garrafas,  âmago em movimento, não são cartas invulneradas,  não possuem atas, discursos medievais, escrituras, declarações de amor, são apenas líquidos, sidras com rótulos ilegíveis, drogas psicotrópicas, lícitas e doces." 


Outros tantos objetos são encontrados: sacolas plásticas, placas, um cilindro, um periscópio, calçados, uma boia desbotada pelo sol – aqui descrita como uma “boia acerejada, pálida e eivada” – também cruza com um golfinho que sorri.   


"V Navegando encontro: sacolas plásticas, um calçado, uma boia acerejada, pálida e eivada; vejo placas, encontro um escafandro, cruzo com tartarugas, com o periscópio,  tem um cilindro ondejando e um golfinho me sorri." 


Na próxima estrofe, a carta continua sua viagem dentro da garrafa, encontrando com outros objetos, como: velas, tábuas e uma máscara cirúrgica que a abraça, viajando presa em seu gargalo; também narra um pássaro que descansa por alguns minutos e depois parte, criando uma metáfora sobre as pessoas que passam por nossas vidas, muitas livres demais para permanecerem próximas.   


"VI Encontro: tábuas, velas de uma  antiga embarcação, máscaras que abraçam sem permissão. Encontro: caixas  e luvas de algum cirurgião, Encontro: um pássaro  e ele repousa sobre mim, me olha e vai embora..."


Como toda viagem, ela também chega ao seu destino. Em silêncio, vai contando os dias e as noites, procura se manter calma, sabe que está pronta, mas o medo a impede de ficar totalmente segura, assim como o coração de todo “ser” apaixonado, que não tem certezas se o amor será correspondido.   


"VII Vou matizando o silêncio,  dilapidando instantes,  conto os dias e as noites. Na tardança, no anseio de chegar, me refaço calma, sei que estou pronta, sinto o arremesso que remove  o filete elástico do meu gargalo, sei que estou perto, sinto o choque das ondas sobre a praia, outra investida, bancos de areia, recifes...  VIII A chegança me faz tremer. Vou despindo pensamentos, desejando encontrar um lugar edênico, desejando te encontrar,  esperando o seu toque, suas mãos que vão me varrer, clarear minha casa,  me libertar da fina areia incrustada, me libertar da cortiça, para que eu possa enfim,  refrescar, respirar, me resgatar."


Assim chega, na incerteza se será lida, dobrada, (re)lida, dissolvida, guardada, reciclada ou virará notícia ou comida de primitivos insetos. Essas três últimas estrofes são encantadoras e demonstram o quanto a autora se entrega durante o seu fazer artístico, apresentando com profundidade um texto cativante, que denuncia com graça e leveza um dos problemas mais destrutivos da atualidade. O lixo dos oceanos que, nesta narrativa, se desprende do gargalo da garrafa, mas que permanece preso a tantos animais marinhos, os asfixiando numa morte lenta e cruel.   


"IX Continuo imaculada, queimei como um náufrago e finalmente sinto a areia úmida, que refresca meu interior. Quem sabe serei encontrada, examinada, dobrada, (re)lida, dissolvida, guardada,  reciclada ou vire notícia ou comida de primitivos insetos, traças prateadas. 

X Ao te encontrar respirarei, evasão de minha pele. Ambiciono ser lida, em voz alta, com os dedos ou em pensamentos. Talvez,  não mais o encontre  Ou talvez eu te descubra no limiar da primeira estrofe, no vago e exato silêncio das palavras incompreendidas. XI Talvez eu te encontre nos versos, na caminhada solitária do eu-poético, nos caracteres tortuosos produzidos pelas mãos trêmulas, na margem da próxima página ou talvez seja emoldurada  próximo a sua cama. Talvez eu te encontre na primeira frase,  no post scriptum, ou quem sabe, simplesmente  seja invadida pelos seus olhos." 


É assim que, pouco a pouco, os leitores são convidados não só a sentirem a poesia da autora, mas também a refletirem sobre quais seriam as suas próprias vozes e memórias que lhes povoam de modo difuso. Da Arizona à Amazônia, passando pela costa de La Perla, por toda profundidade do oceano de Netuno e do universo que sustenta o sol e a lua, Ivete Nenflidio consegue apontar com sua poesia o universal que há em sua particular experiência. Isso faz dos poemas da poetisa um deleite da poesia brasileira contemporânea.


por Fernanda Rodrigues e Maria Aparecida Lopes


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