artigo de Luciana Marquesini Mongim

O artigo centra-se na leitura do livro Desde que o samba é samba, de Paulo Lins, a partir da relação entre vida e arte e da ancestralidade presentes no romance. A vida relacionada à arte evidencia um trajeto de lutas e resistências permeado pela produção e uso da música em sua potência estética e política. A ancestralidade, entendida como princípio norteador da vida dos afrodescendentes e de produções discursivas identitárias do povo que sofre a diáspora e o preconceito racial, funciona como escolha estética para narrar o surgimento do samba e enfatizar sua origem negra, configurando-se, também, como espaço de conhecimento e atuação política. A leitura proposta será fundamentada pelos pressupostos das teorias culturais de Homi Bhabha, pelas relações identitárias analisadas por Stuart Hall, pelas análises da história política e cultural negra no ocidente desenvolvi- das por Paul Gilroy e pelos postulados filosóficos de Edu- ardo Oliveira pensados a partir da cosmovisão africana.

A sorte de uma pessoa está no caminho que ela decide percorrer, ainda mais nu- ma cidade onde o convívio social é no meio da rua, no entrecruzar das esquinas, nos bares, nas feiras, no ir e vir das calça- das. (LINS, Paulo, 2012, p. 110)

No livro Desde que o samba é samba (2012), de Paulo Lins, a voz narrativa em terceira pessoa, por meio do trânsito de personagens ficcionais e históricos, conduz o leitor pelo bairro do Estácio de Sá, pelas ruas do centro, pela zona do baixo meretrício, pelos morros, pelos terreiros de candomblé e casas de umbanda do Rio de Janeiro dos anos 1920. 

Uma cidade que passava por políticas de urbanização, pautadas por um discurso médico e higienista, que promoveram uma reordenação geográfica e social da população carioca. Uma cidade, portanto, que estava sendo arquitetada a partir da presença dos morros e favelas e de discursos que contribuíram para formular representações desses es- paços que relacionam pobreza e criminalidade, fazendo da favela o lugar da violência, da malandragem, da pobreza e da propagação de doenças. Segundo Licia do Prado Valladares, as favelas, no início do século XX, representavam um “mundo diferente que emergia na paisagem carioca em contracorrente à ordem urbana e social estabelecida” (2005, p. 28), ou seja, eram tidas como espaços pertencentes “ao mundo antigo, bárbaro, do qual é preciso distanciar-se para alcançar a civilização” (VALLADARES, 2005, p. 36). O narrador, enquanto guia o leitor por ruas, avenidas, vielas, becos e esquinas que compõem esses espaços urbanos percebidos como “a outra metade da cidade” (VALLADARES, 2005, p. 20), onde os mais pobres estabeleceram-se como alternativa de moradia e de espaço que lhes cabe na cidade, vai apresentando as experiências e as vivências dos sujeitos que habitavam os morros e favelas cariocas do início do século XX. Po- pulação composta, em sua maioria, por negros e mestiços que sofreram com o preconceito racial e com a desigualdade social no espaço da cidade gerada por um modelo de urbanização que mantém um processo contraditório de expansão da cidadania e crescente exclusão social e espacial. Ao mesmo tempo em que narra esse cotidiano no morro, revela a interação política e cultural desses sujeitos que lá residem, apresentando uma cidade que estava sendo (re)construída, sobretudo, a partir de quem vivia nos espaços marginalizados da cidade e das práticas culturais, identitárias e de representação do sujeito e do espaço marginalizado que emergiam. É, portanto, dos espaços segregados da cidade e da tradição dos negros que neles habitavam que surgiram o novo ritmo e melodia, os versos iniciais da poesia e a dança da poética musical, popular e urbana, conhecida como samba carioca. A ação do romance transcorre de meados de 1927 até o desfile da primeira escola de samba, Deixa Falar, no carnaval de 1929. São muitas as referências musicais ao longo do enredo e, entre as personagens ficcionais, há a presença de nomes consagrados do gênero musical que fazem parte da história da música brasileira, como os sambistas Brancura (Sílvio Fernandes), Baiaco e Ismael Silva. O enredo se desenvolve em torno dos dois sambistas, Brancura e Ismael Silva, que são recriados pelo autor por meio da ficção. Estratégia escolhida na obra para (re) apresentar a história do surgimento do samba no país. Transformar os dois sambistas em personagens, em literatura, configura-se como meio possível para contar essa história e tirá-los do silêncio e do apagamento ao qual foram relegados na história do país e da própria música nacional. Isso significa dizer que as escolhas estéticas da obra relacionam-se a um princípio ético, ou seja, o que se conta repercute no como se conta. Nesse percurso de tentar narrar essa outra história, por assim dizer, as elaborações e escolhas estéticas vão entrelaçando as vidas dos dois personagens. Brancura é cafetão e estivador, “o malandro velho do Largo do Estácio, cobra de duas cabeças, faca de dois gumes” (LINS, 2012, p. 11). Sempre sonhou em ser compositor de sucesso, mas “acompanhava aquilo tudo sem entender muito o gingado de sua época.

Gostava de compor, mas não tinha isso como principal atividade. [...] tinha talento, mas vontade não tinha muita, não” (LINS, 2012, p. 174). Envolve-se em um triângulo amoroso, formado pelo português, funcionário do Banco do Brasil e também cafetão, Sodré, e pela prostituta Valdirene, “a puta mais linda daquela zona” (LINS, 2012, p. 85). Entre traições, brigas, desejos incontroláveis, rodas de samba e muita música, ele vive o dilema de renunciar à vida de malandragem e tentar ser um grande artista, como Seu Tranca-Rua o aconselha. Contrapondo-se à Brancura, temos a história de Silva, evidenciado na narrativa pela relação que mantém com a arte. Dedica-se à criação e consegue vender suas músicas para o cantor Francisco Alves, que passa a interpretar seus sambas. Além disso, participa ativamente no processo de criação do que viria a ser, mais tarde, a primeira escola de samba do Rio de Janeiro. Enquanto Brancura vive dilemas amorosos e de conduta, discutidos com Seu Tranca-Rua, Silva dedica-se à composição e à expressão artística que estava sendo criada no bairro do Estácio, ele sim parecia entender “o gingado de sua época”. Ambos, no entanto, ligam os dois focos presentes no romance: a vida de malandros, operários, sambista, prostitutas, mães de santo, e os momentos fundadores do samba carioca como gênero musical e a consolidação da umbanda como religião no país. É da roda de batucada, do terreiro do candomblé, da umbanda, do jongo, dos botequins e das esquinas que partem para criar a nova música. Fontes que são transformadas e que repercutem na vida dos personagens, uma vez que as mudanças no campo musical não se restringem, no romance, à apreciação estética. A linguagem simples e coloquial, tal qual a de malandros, prostitutas, mães de santo, trabalhadores e tantos negros pobres que habitavam o Estácio e a preocupação em recriar a forma de falar das entidades da umbanda - como os pretos velhos, os cablocos, as pombagiras e os exus - aproxima o narrador dos personagens que narra. Além da linguagem que faz uso, o narrador parece conhecer bem os espaços pelos quais as personagens transitam: espaços estigmatizados, segregados, que são vigiados e punidos pelos aparatos do governo, sobretudo a polícia. Parece, assim como Silva, entender o movimento de reconfiguração de identidades e de inscrição, na história do país, do ne- gro como sujeito de enunciação. Não apresenta, as- sim, marcas de distanciamento estético e político da experiência dos personagens e esforça-se em narrar os encontros entre esses sujeitos, marcados pela religiosidade, pelo som do batuque e da música, pela alegria e pelo prazer com um tom, por vezes, irônico.

Artigo na íntegra: https://www.revistas.usp.br/opiniaes/article/download/122208/129550


Comentários
* O e-mail não será publicado no site.