por Maria do Rosário Alves Pereira 

A produção teatral e poética de Hilda Hilst (1930-2004), escritora brasileira conhecida por causar furor em termos de crítica e de público, apresenta-se ao leitor de modo multifacetado. “Transgredir” parece ter sido desde sempre a palavra de ordem em seus textos. Por vezes polêmica, sua escrita deixa fluir um tríplice voz: a do ser humano, a da poeta e a da mulher: “Desde as primeiras horas o mistério da poesia e do amor foi o polo imantado que atraiu a invenção de sua palavra.” (COELHO, 1993, p. 79-80). No discurso amoroso em “Do desejo”, obra poética publicada pela autora em 1992, essas “linhas de força” articulam-se de modo a fazer com que esse texto literário adquira uma dimensão que ora tende fortemente ao erotismo (um erotismo feminino, concebido de modo distinto daquele tradicionalmente estabelecido por um discurso patriarcal/secular), ora almeja ao ideal do sublime. Para tal, a figura feminina assume fundamental importância. Apesar de alguns textos da autora serem considerados pela crítica como pornográficos, essa não é a melhor definição para a poesia de cunho amoroso desenvolvida em “Do desejo”; em outras palavras, se os poemas desta obra não podem ser considerados explicitamente pornográficos, pode-se dizer, de modo mais sutil, utilizando expressão de Susan Sontag, que há neles uma “intenção pornográfica”. No entanto, a conceituação mais adequada parece ser, de fato, a de “poesia erótica”. Algumas considerações de Alexandrian (apud BORGES, 2005, p. 1311) parecem esclarecer a questão: (...) a pornografia é a descrição pura e simples dos prazeres carnais; o erotismo é essa mesma descrição revalorizada em função de uma ideia do amor ou da vida social (...) o erotismo é tudo aquilo que torna a carne desejável (...) tudo que desperta uma ilusão de saúde, de beleza, de jogo deleitável (...). Esse “despertar” do desejo parece ser a tônica na obra em xeque. A partir do texto erótico objetiva-se atrair o leitor “para as regiões limítrofes onde, em lugar da eterna e enganosa segurança das superfícies, ainda se oferecem sugestões para lidar com o risco da queda e o desafio do abismo”. (Ferreira, apud BORGES, 2005, p. 1311). Partindo desse ponto, há que se rever em primeiro lugar algumas ideias acerca do assunto. Em um contexto histórico no qual as identidades não são mais essências predefinidas, sendo, ao contrário, construtos sociais, políticos, culturais, a própria concepção de gênero enquanto instância acabada passa por uma série de reformulações: a identidade feminina, nesse sentido, também passa a ser desconstruída/reconstruída sob a égide de novos valores. Nesse cenário é que se insere a poesia de Hilda Hilst. Uma de suas veias poéticas, na definição de Nelly Novaes Coelho, “é de natureza física (psíquico-erótica), centrada na Mulher” como ser desejante que “busca em si a verdadeira imagem feminina e seu possível novo lugar no mundo” (COELHO, 1999, p. 67). E complementa: é pelo erotismo que “se expressa o problema da mulher em nossos tempos de mutação: ela se redescobrindo como algo essencial, por ser ‘princípio, expansão e duração’ do homem no tempo” (COELHO, 1999, p. 73). Ou seja, a Mulher se torna extensa e multiforme na medida em que se impõe e impõe seu próprio desejo. Na poesia de Hilda Hilst, há um eu poético que se quer desejante, ou seja, tem voz própria ao enunciar seu desejo. Ao realizar esse ato enunciativo, a mulher assume sua condição, deixando claros seus direitos sobre seu corpo e sua sexualidade. É nessa medida que se pode dizer que o erotismo se inscreve como uma faceta política em sua poesia: “Representar o corpo em um discurso é, sim, desencadear relações de poder entre sujeitos; é também questioná-las, negociá-las, ultrapassá-las.” (AMORIM, 2002, p. 195). Já na epígrafe do livro “Do desejo” há indícios de como a temática amorosa será abordada: “Quem és? Perguntei ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.” (HILST, 2004, p. 15). Ou seja: o desejo é um sentimento ardoroso, que “queima” e pulsa tal como lava incandescente; depois, como pó, se esvai; sua marca é a efemeridade. Além de efêmero, livre, a percorrer um “sinuoso caminho”: “um desejo/ Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.”(HILST, 2004, p. 18). Hilda Hilst, em sua poesia, tenta resgatar primeiramente o desejo que se dá no eu, concebido como ser particularizado, para depois inseri-lo na relação Eu-Outro, concebendo-o em uma relação com a alteridade. No poema VIII (HILST, 2004, p. 24), a dimensão assumida por esse desejo na obra em estudo apresenta-se: DESEJO é uma palavra com a vivez do sangue e outra com a ferocidade de Um só Amante. DESEJO é Outro. Voragem que me habita. Assim, o desejo expõe sua dupla face ao leitor: se, por um lado, habita aquele que o sente e o vivencia em toda sua potencialidade, consumindo-o, devorando-o, por outro constrói-se em uma relação fortemente marcada por essa alteridade, ao projetar-se em um Outro que contribui para sua completude. Portanto, a dimensão carnal sobrepõe-se à dimensão ideal. A mulher sai da posição de objeto e passa à posição de sujeito, detentora de seu próprio discurso, como aquela que enuncia o desejo, “tanto dela quanto de outrem, construindo discursivamente uma representação sobre o erotismo a partir de um específico lugar de fala”. (BORGES, 2005, p. 1310). Por outro lado, o desejo pode ser imaterial: ao fazer poesia, ao simplesmente pensar no Outro, ele já se expressa, como observado no poema X (HILST, 2004, p. 26): “Para pensar o Outro, eu deliro ou versejo./Pensá-LO é gozo. Então não sabes? INCORPÓREO É O DESEJO.” A linguagem assume, sob essa ótica, uma dimensão fundamental na obra hilstiana. A sedução que seus textos poéticos conferem ao leitor parece advir justamente desse contato com a palavra: é no uso de seus múltiplos matizes que a poesia de Hilst ganha “alta voltagem lírica”, pelo fato de operar uma desconstrução radical no texto literário, quase visceral. Nas palavras de Michel Riaudel (CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1999, p. 136): “Em Hilda Hilst [a linguagem] se constitui no e pelo desejo (...)”. Não tanto pela temática, portanto, pois as relações amor-erotismo-transcendência já haviam sido “cantadas” por diversos autores em contextos literários os mais diversos. É o vocabulário que, aqui, adquire uma ressignificação, além do ponto de vista feminino que domina a cena do jogo amoroso. Pode-se dizer que uma espécie de perturbação é estabelecida no texto poético quando da abertura do campo semântico: o desejo se concentra em maior parte no rosto, diferentemente do erotismo habitualmente concebido por um discurso tradicional muitas vezes expresso/concentrado na região genital propriamente dita. Na poesia de Hilda Hilst, o desejo é expresso pela boca, pelos olhos, pelo tato, órgãos do sentido que redimensionam o sentimento erótico: “colada à tua boca (...)/O meu vasto querer.” (HILST, 2004, p. 19). É a tensão do desejo que se instala na busca pela posse do ente que se deseja; almejar, desejar apresentam uma correlação direta com o sentimento de fome; o desejo é inesgotável e “descomedido”, pois não segue padrões; aquele que deseja filia-se a uma atitude de descompostura. Os adjetivos e os verbos compõem o clima de tensão/tesão crescente no poema, em uma gradação: o eu poético feminino encontra-se inicialmente descomedida, depois sôfrega, em uma associação com o próprio ato sexual em si, que se realiza na tensão vida/morte, Eros/Tânatos: Como se fosses morrer colado à minha boca. Como se fosse nascer E tu fosses o dia magnânimo Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer. (HILST, 2004, p. 19) O desejo chega a seu ápice: vem o “dia magnânimo” (a manhã que chega/ o orgasmo que se apodera do corpo feminino), e a mulher, concretizado seu desejo, renasce, numa explosão que toma conta dos corpos à luz do amanhecer. Há uma exploração dos dois “corpos da língua”, o plano físico do desejo e seu plano imaterial: isso é percebido pela metáfora da “boca” que perpassa grande parte dos poemas de Do desejo: é o órgão pelo qual sai e entra qualquer tipo de matéria, ou seja, concentra a vida e a morte, por isso assume uma dimensão tanto ideal/sublime quanto abjeta. Serve para blasfemar, abocanhar, sugar, louvar, verbos estes que denotam como é fomentado o desejo erótico em sua obra. Uma nova linguagem erótica, então, é instaurada: mais sutil, mas ao mesmo tempo ainda mais sensual; o discurso amoroso, em Hilst, opera em uma linguagem que lhe é específica. Segundo Moix (apud AMORIM, 2002, p. 197): “o erotismo é, de certo modo, indizível.” (Tradução minha.) Percebe-se então que em alguns momentos tal poesia opera uma transgressão de duplo caráter: transgride tanto em termos literários/linguísticos quanto em termos de valores, ao questionar, de certo modo, valores morais/burgueses, rompendo com as amarras que impedem que o eu poético se realize enquanto ser desejante. Conforme Bataille (apud BORGES, 2005, p. 1310): “a passagem do estado normal ao de desejo erótico supõe em nós a dissolução relativa do ser constituído na ordem descontínua.” O desejo antes recalcado cede lugar a um desejo explícito e consciente por parte daquele que o sente. Por outro lado, pode-se vislumbrar um confronto entre certas aspirações metafísicas e a realidade material tangível e perecível; Deus é nomeado/interrogado/problematizado em suas diversas “caras”, por vezes contraditórias/estranhas. Na relação estabelecida com o sagrado, a poeta procura encontrá-lo em seus avessos; em busca de novas respostas para as relações Homem-Deus, o discurso adquire uma dimensão amorosa na medida em que este último – Mistério – é, por exemplo, atraído e desejado como um abismo: o sagrado causa temor, mas ao mesmo tempo atrai: “Mas atravesso abismos e um vazio de avessos/Para tocar a luz do teu começo.” (HILST, 2004, p. 119). Daí vislumbra-se uma dupla problemática na poesia de hilstiana: a busca do “eu” e do “sagrado” deixa transparecer a diluição das fronteiras entre erotismo e misticismo. Deus e o homem constituem-se como faces diferentes de um mesmo fenômeno: uma espécie de energia que nos impele para a ação, uma “perturbação essencial”, utilizando expressão de Nelly Novaes Coelho, em texto já citado. No desejo que se constitui com o “ser sem nome”, há, novamente, uma relação de alteridade: partindo do corpo e passando por um ideal metafísico, o ser se constitui parte da totalidade na relação Eu-Outro, seja esse Outro um ente metafísico, seja ele carnal, fazendo-se quase parte dele, em uma ânsia de fundir-se com esse Outro. Nas palavras de Eliane Robert Moraes: Ao confrontar sua metafísica do puro e do imaterial com o reino do perecível e do contingente que constitui a vida de todos nós, a escritora excede a sua própria medida, o que resulta numa notável ampliação da ideia de transcendência – daí para a frente submetida aos imperativos da matéria. (MORAES, 1999, p. 117) Dessa forma, torna-se claro que o discurso amoroso em Do desejo, de Hilda Hilst, se desenvolve em duas veias poéticas – a da realização de uma nova ideia de erotismo e a busca por um ideal sublime –, porém ambas constroem-se utilizando os mesmos recursos – ressemantização do vocabulário, por exemplo – e com vistas ao mesmo propósito: fusão do eu poético com o Outro, em uma relação perturbadora. Referências bibliográficas AMORIM, Fabiana Brandão Silva. O erotismo e sua inscrição política na poesia de Hilda Hilst e Teresa Calderón. In: DUARTE, Constância Lima; RAVETTI, Graciela; ALEXANDRE, Marcos Antônio (Org.). Gênero e representação em literaturas de línguas românicas. Belo Horizonte: Pós-graduação em Letras/Estudos literários: UFMG, 2002. (Coleção Mulher e Literatura, v. 5.) BORGES, Luciana. Pornografia, coisa de mulher: identidades, gênero e autoria feminina em Hilda Hilst. In: Seminário Nacional Mulher e Literatura, 11., Seminário Internacional Mulher e Literatura - ANPOLL, 2., Anais. Rio de Janeiro: Lidador, 2005. COELHO, Nelly Novaes. A poesia obscura/luminosa de Hilda Hilst e A metamorfose de nossa época. In: ______. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993. HILST, Hilda. Do desejo. Rio de Janeiro: Globo, 2004. MORAES, Eliane Robert. Hilda Hilst In: Cadernos de Literatura Brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, n. 8, out. 1999. QUEIROZ, Vera. Hilda Hilst e a arquitetura de escombros. In: Pactos do viver e do escrever: o feminino na literatura brasileira. Fortaleza: 7 Sóis, 2004. QUEIROZ, Ver

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