Marina Colasanti é escritora, artista plástica, roteirista e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia. Viveu sua infância na Líbia e então voltou à Itália onde viveu onze anos. Recebeu quatro prêmios Jabuti com seus livros de poesia, crônica e literatura infantil.


Poemas de Marina Colasanti 

I

Lá fora, a noite 

É quando a família dorme 

– inertes as mãos nas dobras 

dos lençóis pesados 

os corpos sob a viva mortalha 

– que a mulher se exerce. 

Na casa quieta 

onde ninguém lhe cobra 

ninguém lhe exige 

ninguém lhe pede nada 

caminha enfim rainha 

nos cômodos vazios 

demora-se no escuro. 

E descalços os pés 

aberta a blusa 

pode entregar-se 

plácida ao silêncio. 

II 

Outras palavras 

Para dizer certas coisas 

são precisas palavras 

outras novas palavras 

nunca ditas antes 

ou nunca antes postas 

lado a lado. 

São precisas palavras 

que inventaram seu percurso 

e cantam sobre a língua. 

Para dizer certas coisas 

são precisas palavras 

que amanhecem. 

III 

Corpo adentro 

Teu corpo é canoa 

em que desço vida abaixo 

morte acima 

procurando o naufrágio 

me entregando à deriva. 

Teu corpo é casulo 

de infinitas sedas 

onde fio me afio 

e enfio invasor 

recebido com licores. 

Teu corpo é pele 

exata para o meu pena de garça 

brilho de romã 

aurora boreal 

do longo inverno. 

IV 

Porta do armário aberta 

Abro a porta do armário 

como abro um diário, 

a minha vida 

ali dependurada 

meu frusto cotidiano 

sem segredos 

intimidade exposta 

que os botões não defendem 

nem se veda nos bolsos, 

espelho mais real 

que todo espelho 

entregando à devassa 

as medidas do corpo. 

Armário tabernáculo do quarto 

que abro de manhã 

como à janela 

para sagrar o ritual do dia. 

Sala de Barba Azul 

coalhada de pingentes 

longas saias e véus emaranhados 

sem que sangue goteje. 

Corpos decapitados 

ausentes minhas mãos 

dos murchos braços. 

Do armário 

minhas roupas me perseguem

como baú de herança 

ou maldição. 

Peles minhas pendentes 

em repouso 

silenciosas guardiãs 

dos meus perfumes 

tessituras de mim 

mais delicadas que a luz 

desbota que o tempo gasta 

que a traça rói 

ainda assim 

durarão nos seus cabides 

muito mais do que eu sobre meus ossos. 

Nenhuma levarei. 

Irei despida 

deixando atrás de mim 

a porta aberta. 

Rota de colisão 

De quem é esta pele 

que cobre a minha mão 

como uma luva? 

Que vento é este 

que sopra sem soprar 

encrespando a sensível superfície? 

Por fora a alheia casca 

dentro a polpa 

e a distância entre as duas 

que me atropela. 

Pensei entrar na velhice 

por inteiro como um barco 

ou um cavalo. 

Mas me surpreendo 

jovem velha e madura 

ao mesmo tempo. 

E ainda aprendo a viver 

enquanto avanço na rota 

em cujo fim 

a vida colide com a morte. 

VI 

Tua mão em mim 

Você me acorda 

no meio da noite 

e eu que navegava 

tão distante 

cravada a proa 

em espumas desfraldados 

os sonhos 

afloro de repente 

entre as paradas ondas dos lençóis 

a boca ainda salgada 

mas já amarga molhada a crina 

encharcados os pêlos na maresia 

que do meu corpo escorre. 

Cravam-se ao fundo 

os dedos do desejo. 

A correnteza arrasta. 

Só quando o primeiro sopro escapar 

entre os lábios da manhã 

levantarei âncora. 

Mas será tarde demais. 

O sol nascente 

terá trancado o porto 

e estarei prisioneira da vigília. 

VII 

Vincent Ciprestes de Van Gogh 

imóveis labaredas verdes 

incêndios sobre a tela verdes 

mulheres nuas em seus cabelos. 

Ciprestes de Van Gogh 

bizantinas colunas da paisagem 

vórtice remoinho 

erguido como o grito 

o fallus 

o arremesso de gozo do pintor. 

VIII 

Entre um jogo e outro 

Ter você nu na cama que deleite. 

E como a gente brinca 

e rola e ri 

para depois sentar nos lençóis 

descompostos o corpo 

ainda suado 

e continuando sempre 

o mesmo jogo falar a sério de literatura. 

Te beijo no cangote 

e quieta penso: 

um outro amante assim 

Senhor que trabalho terias 

pra me arrumar 

se me tomasses este. 

IX 

Sexta-feira à noite 

Sexta-feira à noite 

os homens acariciam 

o clitóris das esposas 

com dedos molhados de saliva. 

O mesmo gesto 

com que todos os dias 

contam dinheiro 

papéis 

documentos 

e folheiam nas revistas 

a vida dos seus ídolos. 

Sexta-feira à noite 

os homens penetram 

suas esposas com tédio e pênis. 

O mesmo tédio 

com que todos os dias 

enfiam o carro na garagem 

o dedo no nariz 

e metem a mão no bolso 

para coçar o saco. 

Sexta-feira à noite 

os homens ressonam 

de borco enquanto 

as mulheres no escuro 

encaram seu destino 

e sonham com o príncipe encantado. 

Frutos e flores 

Meu amado me diz 

que sou como maçã 

cortada ao meio. 

As sementes eu tenho 

é bem verdade. 

E a simetria das curvas. 

Tive um certo rubor 

na pele lisa que não sei 

se ainda tenho. 

Mas se em abril floresce 

a macieira eu maçã feita 

e pra lá de madura 

ainda me desdobro 

em brancas flores 

cada vez 

que sua faca me traspassa.


Trechos da entrevista da escritora Marina Colasanti concedida a Maria Fernanda Rodrigues, do Jornal Estadão em 2017. 


80 anos em movimento. Tem sido uma boa vida? 

Uma vida interessante, que nem sempre foi boa. Por causa da guerra? A guerra não foi tão difícil porque eu era criança. Depois, vieram os problemas na juventude: meus pais se separaram, a doença de minha mãe, a vida ficou um pouco puída, seu tecido ficou esgarçado. Um sentimento de solidão muito forte. 

Como uma criança vive numa guerra. Tem consciência? O que ficou dessa experiência? 

É treinada para ter consciência para que ela se proteja. Mas a infância tem uma força de vida tão grande que ela sobrevive. A gente brinca como se não estivesse na guerra, se diverte. Lembro de uma vez que ouvimos um barulho numa casa no meio de um parque enorme. Nossos pais tinham ido para cidade e saímos para caçar o inimigo – eu com seis anos, meu irmão com sete, minha prima com nove e a empregada quase da mesma idade da gente. Saímos armados de facões e rolo de fazer macarrão, e, em fila indiana, andamos em volta da casa para ver se tinha inimigo. Criança é criança. Por sorte, porque senão as crianças brasileiras das favelas não poderiam ser crianças e as crianças sírias também não. Perde-se a parte da proteção, mas não se perde a curiosidade, a capacidade de aprender e o desejo de viver. 

Por que acha que é escritora? 

Sempre desejei ser artista e a escrita como eu faço, a que me interessa, que não é só contar uma história, é a arte da palavra. Li muito na infância, na guerra, e ficou essa impossibilidade de viver sem livro. Não sei viver sem ler e, possivelmente, não sei viver sem escrever porque tenho diário desde os 9 anos. A minha relação com a vida é através da escrita. 

As vivências na África, Itália e aqui contribuíram para que escrevesse histórias? Ou a herança de uma família artística foi decisiva? 

Tudo foi importante. As vivências da infância são um pote enorme onde a gente enfia a mão toda vez que vai buscar uma sensação. Como é o sol na pele? Pum, lá vai a mão no pote procurar como eu senti a primeira vez que tive consciência do sol na pele. O tempo inteiro é isso. Os livros que li, a família artista, eu debruçada na prancheta do meu tio cenógrafo e figurinista. Tudo se funde. Há várias maneiras de contar histórias para crianças e adolescentes e muitos seguem o caminho mais próximo do didático, pensando talvez nas vendas. 

O que deve ser essa literatura? 

O que quero é emocionar, fazer pensar, deixar coisas em aberto, surpreender. Não quero dar o que querem porque isso não vai acrescentar nada: vai ser o que já conhecem. Quero dar literatura, ou seja, a palavra em vários níveis, contos com várias possibilidades de interpretação. 

Do que sente saudade? 

De um Brasil mais suave, da Ipanema que eu vivi, da praia em que nadei. Claro, a gente sente saudade das pessoas, mas isso é da ordem natural das coisas. Não sou saudosista da juventude. Não me queixo: acho minha idade ótima. Não tenho medo da morte, não quero viver muito. A cara era mais bonita antes, mas está bem assim. Ando viajando como uma louca, trabalhando como sempre, ou até mais. As filhas estão criadas. Quando temos filho pequeno ou desestabilizado, não podemos morrer. Eu posso, sem medo. São tempos difíceis, de muito extremismo, muita raiva. 

A literatura pode ajudar a melhorar essa situação, as pessoas, o mundo? 

Shakespeare escreveu em 1500. Dante escreveu a Divina Comédia antes. E Homero, antes ainda. E nada mudou. Não acredito que a literatura mude a ordem das coisas. Ela muda os indivíduos – alimenta os indivíduos, dialoga com eles e os ajuda a dialogarem consigo mesmo. E indivíduos se juntam e fazem um partido, se juntam e impõem uma ditadura, fazem uma guerra. Há uma territorialidade e uma prepotência no ser humano, e a sede de poder, o egoísmo, a ferocidade e o sentimento de territorialidade conduzem o mundo mais do que sentimentos profundos individuais – os mais pessoais, íntimos, de ternura, de afeto, de projetos, de desejos, de irmandade e caridade. Eles acabam sendo sempre vencidos na história da humanidade.

Marina Colasanti, em entrevista concedida à Maria Fernanda Rodrigues/Estadão. 5.8.2017.

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