Autora dos livros “Entre” (Verve, 2014) e “Os tempos da escrita de Clarice Lispector – no litoral entre a literatura e psicanálise” (Cia. de Freud, 2014).

LUCIANA BRANDÃO CARREIRA é poeta e ensaísta, psicanalista e psiquiatra, doutora em Psicanálise pela UERJ com doutorado sanduíche na Université Paris XIII, França. Realizou pós-doutoramento em Estudos literários no Instituto de Literatura e Tradição (IELT) da Universidade Nova de Lisboa, Portugal, e segue pesquisadora da rede internacional de pesquisa Escritas da Experiência (Cnpq). É professora adjunto da Universidade do Estado do Pará (UEPA), supervisora clínica no Ambulatório de Saúde Mental do Centro de Ensino Superior do Pará (Cesupa), onde também compõe o corpo docente do Mestrado em Educação em Saúde. É autora dos livros ‘Entre’ (Verve, 2014), ‘Os tempos da escrita na obra de Clarice Lispector – no litoral entre a literatura e a psicanálise’ (Cia de Freud, 2014) e ‘A letra da Água’ (Pakatatu, 2017),com vários artigos publicados em revistas literárias e de psicanálise, além de em antologias. Foi contemplada em 2016 com o prêmio Carlos Drummond de Andrade de Literatura, concedido pelo Sesc do Distrito Federal, na categoria Poesia. É componente ativo do núcleo editorial da Revista de literatura Polichinello e colaboradora da Revista Caliban.  

POEMAS:

a primeira água

gota

lagoa espuma colostro

chuva magma lágrima

rio vapor menarca

mar nanquim aquarela

urina suor garoa

aguarrás catarata saliva

tintura sêmen orvalho

nascente sangue linfa

líquor

no oceano de uma única gota

todas as águas

servida ao corpo

por amor.                                                                                                                                                          

                                         Dela, a memória.


Onda

no princípio foi a Espuma

lugar 

onde o mar esfumaça 

quando o poema diz

rarefeito

todas as minhas águas


Nos fios

No princípio foi a deglutição,

pois o mundo nasce pela boca.

Foi preciso engolir todos os sumos e labaredas

condensados no primeiro fio de uma voz,

isto é,

na seda de algodão da fala amada

amarrada ao leite grosso,

às seivas e selvas da flora materna.

Na chuva benta das lágrimas,

foi preciso celebrar a água,

inundar a saliva de ar

aprender a arrotar e a cuspir

entender que o esôfago e a vagina 

se alinham na sede

e que para surpreender o paladar

foi preciso prepará-lo,

aguçá-lo para o dia da espuma

para a hora do esperma

numa outra ceia

em que o alimento também passa pela boca,

por múltiplas bocas.

Foi preciso suportar a fervura

da incisiva marca de uma letra

em estado de ebulição,

sem embaçar os futuros olhos de lince,

soprando levemente os cílios

até fazê-los piscar freneticamente,

num ato de pura bondade.

Foi preciso engolir

a palavra marginal,

com toda a vontade de

submergir em seus equívocos,

para depois reencontrá-la

na poesia errante de algum Drummond.

Foi preciso ultrapassar a palidez da gangrena

sem vomitar,

ou engolindo o vômito,

na gangorra das (des)aparições

do corpo da mãe.

Foi preciso deglutir a febre convulsiva de

Artaud,

desde o princípio,

e provar do intraduzível gosto da rasura escarificada na pele

pela escrita.

Foi preciso suportar o insuportável da escrita,

para com ele forjar um resto possível

para alguma escrita impossível.

Também foi preciso decidir não morrer.

para então beber, aos goles,

o corpo líquido da vela em sua versão mais quente,

a parafina,

junto com a catatonia da menina triste,

versão bruta da boneca de cera.

Muito mais foi preciso

até que chegássemos ao momento de agora,

quando damos uma gigante volta na roda do tempo,

certamente menor do que antes,

pois,

ultrapassado o meio do giro,

pouco sobrou da página em branco.

Foi preciso estar preparado para esse espanto,

para o ponto de exclamação desenhado na barra do teste de gravidez,

recebido na escassez de tempo

para a sua respectiva subversão.

Novamente, foi preciso não turvar a visão,

enquanto durassem os pés.

Foi preciso suportar o excesso,

um gole a mais do intraduzível rito,

parce que j’écris quand je criedonc,

Il a falluavalerl’amourtoujourssouscrit.

Foi preciso fiar a própria musculatura,

trançar os seus fios invisíveis,

forjá-los,

entretecer a rede de cada fibra e fímbria da panturrilha.

Mas para andar há de se ter o atrito,

por isso foi necessário também inventá-lo.

Por isso foi preciso arranhar o céu da garganta,

as bordas das cordas vocais,

para então fazer a voz avançar

na direção

sul

do corpo,

no oco do corpo,

no corpo em seu estado eólico

de sopro e harpa.

Foi preciso engolir a farpa

da madeira

do lápis

desgovernado

com o qual escrevo aqui,

com o qual eu escrevo em ti.

Com o fulgor no punho,

foi preciso manusear esse lápis,

até sermos capazes do ato de aspiração.

Pois, para que nos apropriássemos da cor,

foi preciso respirar o pólen do amarelo,

expor a íris aos girassóis extraídos

de um Van Gogh essencial.

Uma vez assim,

tornou-se possível a experiência

de todos os outros cheiros,

de todas as outras cores.

Mas também era preciso atravessar

a fauna e o reino das relíquias,

o sonoro odor da maré batendo na casa da ostra,

a arrebentação dessas outras águas em estado fundante de onda,

para então conhecermos os cetáceos e a diferença entre eles e os gigantes quelônios,

e também entre os anfíbios e os répteis e os batráquios.

No princípio,

foi preciso duvidar do aminoácido,

vencer o medo recrudescente, destilar o veneno das Medusas,

fazer dele o soro que dosa a vida à Vida nas línguas da cura,

extinguir o retorno de um dragão repentino,

degolando-o na certeza do amor prevalecido

diante de todos os lobisomens e homens lobotomizados.

Vivos,

aprendemos a cantar com as sereias,

a nadar com os golfinhos,

a gestar com os cavalos-marinhos.

Em vias de desaparição,

criamos um corpo capaz de engolir, falar, cuspir, sugar, perder, cantar, andar, ganhar,

ler e escrever,

voar, foder, sentir, suspirar, parir,

cortar e enlaçar,

escolher, chorar, gozar, tecer,

cair e levantar,

planejar e surpreender,

queimar e renascer,

amar e ser amado.

Para que então ele fosse capaz

do sobretudo:

o ato de desejar.



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